
Catadores trabalham em centros de reciclagem |Foto: Claudio Fachel/Palácio Piratini
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Débora Fogliatto
Uma campanha para valorizar o trabalho de catadores e catadoras em Porto
Alegre foi lançada este mês, mas é fruto de discussões e reivindicações
existentes há anos. A categoria alega ser desvalorizada pela Prefeitura
Municipal, que não contrata os trabalhadores para realizar a Coleta
Seletiva, optando por fazer licitações de empresas privadas, e
implementa uma lei que busca acabar com as carroças e carrinhos.
A conversa entre o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais
Recicláveis (MNCR) e o poder público foi iniciada em 2003, mas com o
passar dos anos não resultou em maior reconhecimento da categoria.
Atualmente, eles acabam realizando um trabalho paralelo ao do
Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU), que realiza a Coleta
Seletiva. Ao mesmo tempo, milhares de resíduos são recolhidos
diariamente por catadores, que trabalham em galpões de reciclagem em
condições geralmente precárias.
Os catadores argumentam que o Código Municipal de Limpeza Urbana
prevê a contratação de seus serviços para a Coleta Seletiva, através de
suas organizações, mas isso não é cumprido pelo poder municipal.
Recentemente, a Prefeitura anunciou o edital de licitação para
contratação de uma nova empresa para realizar a coleta.
Diante da ausência de respostas, os catadores lançaram a campanha
Coleta Seletiva Solidária, que permite que a população apoie sua luta
através da separação de lixo para ser recolhido por eles. “Estamos nos
mobilizando para que as pessoas intercedam no apoio aos catadores, para
que a Prefeitura invista no protagonismo dos trabalhadores ao invés de
na iniciativa privada”, explicou Alex Cardoso, líder do MNCR no Rio
Grande do Sul.
Ele conta que havia negociações sendo feitas com uma equipe técnica
da Prefeitura, mas que nunca aconteceram no âmbito político. “Iniciamos
uma negociação com os técnicos, para a criação de um plano piloto de
coleta seletiva, com bairros Tristeza e Assunção. Em dezembro,
encaminhamos um documento para o DMLU para oficializar a cooperativa,
mas eles nunca responderam”, contou Alex. A partir daí, o diálogo com o
Executivo foi cortado, segundo ele.

DMLU recolhendo resíduos: catadores pedem participação | Foto: Ocimar Pereira / PMPA
Na quarta-feira (26), representantes do movimento foram até o
Ministério Público apresentar os documentos que já foram encaminhados
para a Prefeitura e as determinações do Código de Limpeza. A
reivindicação é que o órgão possa cobrar uma resposta por parte do poder
municipal.
O DMLU argumenta que a coleta Seletiva é feita por meio de contratos
regulares desde 1991, e que o processo está “bem constituído na cidade”,
portanto, a nova licitação apenas mantém o processo, além de “ampliar e
qualificar”. Através do programa Todos Somos Porto Alegre, a Prefeitura
diz manter contato e diálogo com os catadores. “O programa visa à
emancipação de carroceiros e carrinheiros por meio de novas
oportunidades de trabalho”, afirma o DMLU.
Carroças e carrinhos de tração humana*
Essas novas oportunidades são necessárias devido à aprovação do
decreto nº 16.638, que regulamenta a lei nº 10.53, prevendo a redução
gradativa da circulação de carroças e carrinhos até 2016. A lei,
aprovada em 2007 e proposta pelo atual vice-prefeito Sebastião Melo
(PMDB), que na época era vereador, é criticada por movimentos
organizados e cooperativas de carroceiros e carrinheiros.
A lei previa que a atividade fosse extinta dentro de oito anos, mas
reuniões realizadas na Câmara de Vereadores ao longo deste tempo indicam
que talvez o prazo não possa ser cumprido. O vereador Marcelo Sgarbossa
(PT), que preside a Comissão de Saúde e Meio Ambiente (Cosmam),
acompanha a questão e constatou que o processo não tem dado certo, visto
que o cadastramento que está sendo feito não foi bem-sucedido em
encontrar os catadores. Ele protocolou um projeto de lei que procura
estender o prazo de aplicação da lei, para que ela possa ser implantada
até 2017.
A partir deste cadastro, os carroceiros seriam encaminhados para
cursos profissionalizantes e, em seguida, ao mercado de trabalho. No
entanto, o MNCR observou que “na prática, os cursinhos não encaminham
nada”. Sgarbossa aponta que, ao invés de criminalizar, a Prefeitura
poderia criar alternativas que valorizassem e trouxessem mais dignidade
para a atividade dos carroceiros e carrinheiros. “Poderiam ir na linha
de reconhecer a atividade e dar condições técnicas, como carrinho com
motor elétrico, para realizar essa coleta”, sugere.
Ele entende que a questão do direitos dos animais também é
importante, o que torna mais complicada a temática dos carroceiros. “É
claro que sou contra cavalos serem maltratados. Mas daí já se incluiu
junto os carrinheiros, que são de tração humana. me perguntam se não é
indigno um ser humana empurrar um carrinho, mas temos que perguntar o
que essas pessoas acham”, apontou, destacando que nas reuniões
realizadas os trabalhadores se mostraram orgulhosos e com vontade de
continuar na profissão.
Em audiência realizada na Câmara, Juliana Couto da Silva, recicladora
da vila Santo André, criticou também o valor oferecido como indenização
pela Prefeitura. “Querem tirar as carroças e os carrinhos das ruas, mas
oferecem R$ 200, o que a gente consegue numa semana de catação”,
ponderou. Ela também lembrou que “sem os catadores, Porto Alegre vai
virar um lixão, pois somos nós quem recolhemos tanto lixo nessa cidade”.
Sgarbossa também destaca esse ponto, e questiona quem irá recolher
todo o material que hoje é removido das ruas pelos catadores. “Isso vai
ficar a cargo da empresa que é contratada pela Prefeitura, o que vai
gerar ainda mais custos. Porque agora não tem custo nenhum isso para o
poder público, o trabalho realizado por eles”, observou.
Na audiência realizada no último dia 18, representantes do Executivo
argumentaram que um dos objetivos é dar direitos trabalhistas aos
catadores, que agora tem uma profissão informal. Cursos de capacitação e
alfabetização também estão previstos para iniciar em setembro, em
parceria com o Senac, e outra opção seria entrar em associações de
unidades de triagem que já existem.
Mas o Movimento denuncia que muitas associações agora “se portam
diferente” e que os catadores são mera mão de obra à mercê das
diretorias, que definem “as formas de partilha assim como toda a direção
do trabalho. Muitos destes ‘diretores’ foram, mas não são mais
catadores sendo que outros, nem chegaram a ‘sujar as mãos nos
recicláveis'”, afirma Alex. Segundo texto divulgado pelo MNCR, dessa
forma “a Prefeitura quer excluir a categoria e organizar meia duzia em
galpões controlados pela politicagem municipal e entregar todo serviço
de coleta seletiva à iniciativa privada”.
*Com informações da Câmara de Porto Alegre